Como engenheiros orientam esforços de resgate no Nepal em grupo de WhatsApp

Um grupo de especialistas no WhatsApp está orientando equipes de resgate que vasculham um vale no Nepal — após uma enorme enchente ocorrida há mais de uma semana — em uma busca desesperada por qualquer pessoa que possa estar viva dentro dos túneis de usinas hidrelétricas devastadas.

O grupo de mensagens foi criado por engenheiros antes que uma massa de água, lama e rochas desabasse pelo vale do rio Trishuli, no Nepal, em 26 de agosto. Desde então, ele se tornou uma ferramenta valiosa, somando-se a helicópteros e maquinário pesado na corrida para encontrar sobreviventes.

As autoridades esperam que algumas das cerca de 900 pessoas dadas como desaparecidas em seis usinas hidrelétricas — pelo menos três das quais estavam em construção — possam ter escapado da enxurrada por trabalharem nos túneis ou terem fugido para dentro deles.

Até mesmo localizar as entradas de alguns desses túneis — projetados para canalizar água ou servir de acesso às instalações das usinas — tornou-se difícil agora, depois que a inundação deixou 2,2 milhões de toneladas de lama e detritos ao longo do vale.

“Você pode me enviar as plantas de layout de Chilime?”, escreveu um funcionário do governo no grupo de WhatsApp dos engenheiros no sábado (29), enquanto equipes de resgate vasculhavam os escombros soterrados da usina hidrelétrica de Chilime, situada nas alturas do vale do Himalaia, perto da fronteira com a China.

Minutos depois, um membro do grupo — que havia sido ampliado para incluir mais especialistas em apoio aos esforços de resgate — respondeu enviando plantas da casa de força do projeto, bem como detalhes dos túneis de acesso.

Essa troca de mensagens e outras publicadas no grupo, que conta com mais de 500 membros, foram vistas pela Reuters.

Até o momento, ninguém foi encontrado vivo nos túneis da usina de Chilime — nem nos túneis de qualquer uma das outras usinas situadas mais abaixo no vale.

No entanto, a Associação de Produtores Independentes de Energia do Nepal informou na segunda-feira que pelo menos oito pessoas poderiam estar presas em Chilime, enquanto um representante da Autoridade de Eletricidade do Nepal afirmou que 46 pessoas poderiam estar presas na usina hidrelétrica de Rasuwagadhi, mais ao sul.

A Reuters conversou com cerca de uma dúzia de pessoas — incluindo autoridades governamentais e militares, engenheiros, sobreviventes e familiares de trabalhadores desaparecidos — que descreveram os esforços de busca nas redes de túneis das usinas destruídas, relatando, inclusive, como especialistas forneciam orientações em tempo real via WhatsApp.

“A inundação alterou o terreno ao redor dos túneis e modificou sua estrutura, enquanto lama, rochas, terra e outros detritos se acumularam em seu interior”, disse à Reuters o porta-voz do exército do Nepal, Raja Ram Basnet.

“Não se trata de um fechamento comum de túneis”, acrescentou.

Em Chilime, imagens da Reuters feitas na segunda-feira (31) mostravam a ampla entrada de um túnel com detritos da inundação atingindo o teto a curta distância da entrada.

Mais de 1.200 pessoas morreram na enxurrada da semana passada, causada pelo colapso de uma geleira. Mais de 4.000 pessoas continuam desaparecidas, incluindo aquelas que podem estar presas dentro de túneis.

Além de Chilime, equipes de resgate estão realizando buscas em outras cinco usinas hidrelétricas no vale, que faziam parte de uma rede em expansão de usinas responsáveis ​​pelo abastecimento do país e pela exportação do excedente de energia. A inundação destruiu 10% da capacidade de geração do Nepal.

Orientação sobre as redes de túneis via Whatsapp

Na usina hidrelétrica de Rasuwagadhi, as equipes de resgate avançaram 250 metros por um túnel antes de encontrarem uma obstrução. No entanto, não desistiram das buscas.

“Estamos tentando chegar ao interior novamente para procurar por pessoas”, disse Amshu Kiran Shahi, membro do conselho da Autoridade de Eletricidade do Nepal, acrescentando que 46 pessoas podem ter ficado presas em uma câmara onde haveria acesso a alimentos e água.

Um gerente da Autoridade de Eletricidade do Nepal, falando sob condição de anonimato, disse que as equipes de resgate também pediram orientações a ex-funcionários da usina sobre as redes de túneis por meio de um grupo de WhatsApp. Ele afirmou que os desenhos compartilhados no grupo foram úteis.

No projeto hidrelétrico Upper Trishuli 3A, as equipes de resgate levaram quase seis dias para chegar ao túnel porque a entrada estava soterrada, disse Shahi, acrescentando que, desde então, tentaram fornecer oxigênio por meio de tubos para eventuais cavidades, caso houvesse alguém preso.

Um fotógrafo da Reuters que sobrevoou o local nesta quinta-feira (3) viu escavadeiras tentando remover enormes rochas da entrada de um túnel e buscando avançar para o interior.

Jan Jiwan Thakur, engenheiro civil da usina Upper Trishuli 1, contou que um colega o alertou sobre a chegada da inundação momentos antes de ela descer pelo vale, dando-lhe tempo suficiente para subir a um terreno mais elevado junto com cerca de 100 outras pessoas da instalação.

“Simplesmente corremos em direção à encosta e, dois ou três minutos depois, quando olhamos para baixo, tudo havia desaparecido”, disse ele.

“Os destroços da enxurrada haviam coberto completamente a área do nosso escritório”, afirmou.

Dhan Bahadur Tamang descreveu como escapou por um túnel na mesma instalação quando a enxurrada atingiu o local, arrastando tubulações e outros equipamentos para o interior. Conhecendo o sistema de túneis, ele e várias outras pessoas encontraram uma saída, mas ele relatou ter visto corpos durante sua fuga pelo subsolo.

No grupo de WhatsApp dos engenheiros, os integrantes compartilharam nomes e números de celular dos trabalhadores desaparecidos, pedindo a autoridades governamentais que os repassassem às operadoras de telecomunicações na tentativa de localizar a última posição registrada de seus aparelhos.

Enquanto isso, familiares aguardam notícias de seus entes queridos desaparecidos, como Rajesh Shrestha, cujo filho de 30 anos, Rajish, é engenheiro ambiental na usina Upper Trishuli 1.

“Sempre que olho para fora, imagino vê-lo chegando em casa com uma bolsa, exatamente como costumava fazer”, disse Shrestha, que administra uma oficina de fabricação de grades para janelas.

“Sobrevivo graças à esperança de que ele volte”, afirmou.

Enchente no Nepal: Relembre desastres do Himalaia dos últimos anos

0
0

PROCURAR