Oralidade, cultura e pertencimento: o trabalho de Viviane Onítàn nas escolas de Mairiporã

Escritora, arte-educadora, produtora cultural e “tradicionalista da palavra”, como ela própria se define, Viviane Onítàn vem desenvolvendo nas escolas municipais de Mairiporã um trabalho voltado à educação antirracista por meio da oralidade, da contação de histórias, da música, da dança e das vivências culturais afro-brasileiras.

As atividades fazem parte do projeto “Estória de Chão”, realizado pelo Programa Mais Cultura Mairiporã em parceria com a Secretaria Municipal de Educação. A proposta busca ampliar o repertório cultural dos estudantes e contribuir para o cumprimento das Leis Federais nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, que tornam obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena nas escolas.

Segundo Viviane, o trabalho nasceu da própria trajetória de vida. Ela relata ter enfrentado episódios de racismo desde a infância e afirma que essas experiências influenciaram diretamente sua atuação artística e educacional.

Após experiências difíceis durante a faculdade e períodos de vulnerabilidade social, começou a se aproximar da contação de histórias como ferramenta de transformação social. Inicialmente, a intenção era desenvolver atividades com crianças de comunidades periféricas em São Paulo.

Sem recursos financeiros e sem acesso facilitado a livros e materiais, passou a escrever suas próprias histórias. Dessa experiência surgiram projetos voltados à oralidade e à valorização da cultura afro-brasileira, culminando na criação do “Estória de Chão”.

Nas escolas, o projeto funciona como uma espécie de “aula-espetáculo”. Durante os encontros, as crianças participam ativamente das atividades, interagindo com músicas, histórias, personagens, brincadeiras e elementos culturais apresentados pela educadora.

Viviane explica que sua prática dialoga com tradições orais africanas e com metodologias ligadas à chamada pedagogia dos griots — figuras historicamente responsáveis pela preservação da memória e da oralidade em diferentes sociedades africanas. Segundo ela, trata-se de uma pedagogia que dialoga com a história e a realidade das comunidades em torno da escola.

Ao longo das atividades em Mairiporã, Viviane relata ter encontrado forte receptividade entre os estudantes. Segundo ela, muitas crianças demonstram identificação imediata com as ações culturais e passam a participar de maneira afetiva e espontânea das atividades.

Ela também afirma perceber, nas escolas, uma grande carência de representatividade cultural e racial. Em diversos momentos, relata ter ouvido de crianças comentários relacionados à aparência, cabelo e identidade racial, revelando inseguranças e preconceitos já incorporados ao cotidiano escolar.

Apesar dos desafios, a educadora destaca que o retorno das crianças, famílias e profissionais da educação tem sido majoritariamente positivo. Professores frequentemente pedem que as atividades tenham continuidade e famílias procuram a educadora para relatar mudanças na autoestima e no comportamento das crianças após as oficinas.

Para Viviane, o projeto vai além da apresentação cultural, o trabalho busca não apenas valorizar estudantes negros, mas também promover integração, reconhecimento das próprias histórias e convivência comunitária.

Além das apresentações nas escolas, o projeto também pretende alcançar outros espaços sociais do município, como associações, centros de convivência e equipamentos de assistência social, ampliando o acesso à cultura e às experiências formativas baseadas na oralidade e na diversidade cultural brasileira.

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