Já pensou em esquiar no Marrocos? Veja surpresas do 1º rival do Brasil, que tem neve, rei e um fígado apaixonado

Visitantes na estação de esqui de Oukaimeden, no Marrocos
Fadel Senna/AFP
Quando se fala em Marrocos, muitos pensam em dunas de areia e cidades cercadas pelo deserto. Mas o primeiro adversário do Brasil na Copa do Mundo guarda surpresas como estações de esqui, monarquia como forma de governo e até uma herança histórica que associa o fígado, e não o coração, ao amor.
➡️ Neste sábado (13), a Seleção Brasileira enfrenta o Marrocos em seu primeiro jogo na Copa do Mundo de 2026. A partida será às 19h, no horário de Brasília (18h no horário local), no Estádio MetLife, em New Jersey-Nova York, nos Estados Unidos.
Veja, abaixo, curiosidades sobre o primeiro adversário do Brasil na Copa:
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Do deserto às montanhas com neve
Saara, no Marrocos
Arquivo pessoal
O Marrocos vai muito além da imagem clássica do deserto. Em um único território, o país reúne paisagens muito diferentes entre si: montanhas com neve, praias banhadas pelo Atlântico, vales secos, oásis e dunas do Saara.
Próximo à Marrakesh, por exemplo, há estações de esqui. Como explica o professor de história Wilher de Freitas Guimarães, a altitude da região — que abriga o Alto Atlas, a principal cadeia de montanhas do país — causa as nevascas.
Depois das montanhas, no interior e no sudeste do país predominam regiões áridas próximas ao deserto do Saara.
No litoral atlântico, o clima é mais ameno por influência do oceano, contrastando com as áreas desérticas do interior.
“Lá tem uma diversidade enorme. Deserto, regiões montanhosas com neve”, afirma o professor. “É extraordinário pensar em toda essa perspectiva de diversidade para romper com esse pensamento de homogeneidade tanto da África quanto de Marrocos”.
Kasbah dos Oudayas, em Rabat, localizada no alto de uma falésia sobre o Atlântico
Giovanna Dell’Orto/AP
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Monarquia
O país, diferentemente do Brasil que tem a República como forma de governo, é uma Monarquia Constitucional, ou seja, tem o seu Estado governado por um rei. O país conta com Executivo, Legislativo e Judiciário, mas o monarca mantém amplos poderes constitucionais e exerce forte influência sobre a estrutura política marroquina.
O rei que governa o Marrocos atualmente é Mohammed VI, que assumiu o poder em 1999, com a morte de seu pai Hassan II. A família de Mohammed, a Dinastia Alaouita, chegou ao poder em 1631.
O Papa Francisco foi recebido no aeroporto pelo rei marroquino, Mohammed VI.
Fadel Senna/Pool Photo via AP
Como explica Wilher, o monarca não é visto apenas como poder central do governo, mas parte da população que crê no islamismo também tem em sua figura um líder religioso.
“Setores da população marroquina não veem a pessoa do Mohammed apenas como um líder político, mas também um líder religioso. E você tem um pouco da mistura ali da religião com a questão política”, afirma.
Em 2011, com a Primavera Árabe, a estrutura institucional do país passou por reformas. Para atender as demandas da população, que pedia menos concentração de poder, o governo promoveu uma nova Constituição aprovada por referendo popular.
Entre as principais mudanças, o rei passou a ser obrigado a nomear o chefe de governo do partido vencedor das eleições, o Parlamento ganhou mais atribuições e foram ampliadas garantias de direitos e participação política. Apesar disso, Mohammed VI manteve amplos poderes como chefe de Estado, comandante das Forças Armadas e principal autoridade religiosa do país.
“[Em Marrocos] tem eleições, as mulheres votam, você tem partidos políticos, mas tudo debaixo de um certo controle do rei”, explica Wilher.
Um país multilíngue
Marrocos pretende duplicar as chegadas de turistas até 2030, com uma meta de 26 milhões de visitantes anuais
Getty Images via BBC
Marrocos tem duas línguas oficiais, o árabe e o amazigue (berbere), mas é marcado pelo multilinguismo. Além do árabe marroquino, conhecido como darija, é comum encontrar pessoas que falam francês, espanhol e, cada vez mais, inglês.
Árabe: é uma das duas línguas oficiais do país. Além de ser amplamente utilizado na comunicação cotidiana, o idioma também está ligado à história, à cultura e à tradição islâmica marroquina.
Amazigue (berbere): falado pelos povos amazigues, presentes no Norte da África há milênios, é uma das línguas oficiais do Marrocos e possui diferentes variantes regionais.
Darija (árabe marroquino): é a língua mais utilizada no dia a dia pelos marroquinos. Embora tenha origem no árabe, apresenta vocabulário e expressões influenciados pelo amazigue, francês, espanhol e outros idiomas que marcaram a história do país.
Francês: a presença do francês é resultado do período colonial. Durante o século XX, grande parte do território marroquino esteve sob protetorado da França. Mesmo após a independência, o idioma segue sendo falado no país.
Espanhol: o espanhol é falado no norte do país, região que também esteve sob influência espanhola durante o período colonial. A proximidade geográfica com a Espanha, separada por apenas cerca de 14 quilômetros no Estreito de Gibraltar, contribui para a manutenção do idioma em algumas áreas, além de favorecer intercâmbios culturais e econômicos.
Inglês: a língua inglesa ganhou espaço nas últimas décadas impulsionada pelo turismo, pela globalização, pela internet e pelas relações internacionais.
Fígado no lugar do coração
Entre as curiosidades mais inusitadas associadas a Marrocos está a ideia de que o fígado, e não o coração, seria o órgão ligado ao amor. Segundo o professor Wilher, contudo, a origem dessa associação é muito mais antiga do que a própria cultura marroquina e remonta a crenças da Antiguidade.
Naquele período, povos como gregos e romanos ainda não compreendiam o papel do cérebro nas emoções e atribuíam significados simbólicos a diferentes órgãos do corpo. O fígado era visto como um centro vital para o bem-estar físico e emocional, o que fez com que ele aparecesse em mitos, obras literárias e expressões relacionadas aos sentimentos.
Com a expansão de influências culturais pelo Mediterrâneo e pelo mundo árabe, essa simbologia combinada com as tradições locais do Norte da África integrou a cultura da população.
Por isso, é possível encontrar referências ao fígado em poemas, metáforas e expressões da tradição árabe presentes em Marrocos. No entanto, a ideia teorizada e refletida não faz parte do cotidiano dos marroquinos nem substitui o coração como símbolo moderno do amor.
Hoje, a associação é vista principalmente como uma curiosa herança histórica e cultural que sobrevive em algumas manifestações literárias e populares da região.
“Você pode encontrar em brincadeiras, você pode encontrar em círculos de amigos, mas não é uma ideia que você possa dizer em Marrocos ao se declarar. Você não vai ouvir dizer: “Amor, você é meu fígado”.
Relação com o futebol
Torcedores festejam a seleção do Marrocos nas ruas de Rabat
FADEL SENNA / AFP
Em 2022, a seleção marroquina teve uma trajetória histórica na Copa. Quarta colocada no Catar, a seleção do Marrocos conquistou o melhor resultado de um país africano no torneio.
A equipe chegou à semifinal, mas acabou derrotada pela França por 2 a 0. Depois, perdeu a disputa do terceiro lugar para a Croácia, por 2 a 1. Mesmo assim, ao chegarem em casa, os jogadores foram recebidos com festa.
Historicamente, segundo Wilher, a população é fã do esporte.
“Eles gostam de futebol, talvez nem tanto quanto os brasileiros, mas o futebol lá não é algo secundário”, conta. “Faz parte da cultura”.




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