Peru escolhe hoje novo presidente em eleição marcada por polarização e ‘desconfiança crônica’

A candidata de direita, Keiko Fujimori, e o candidato de esquerda, Roberto Sánchez, antes de um debate televisionado em 31 de maio em Lima, às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 7 de junho.
Reuters/Alessandro Cinque
Em meio a uma profunda crise e ao descrédito das instituições, os peruanos vão às urnas neste domingo (7) para eleger um novo ou uma nova presidente entre o candidato da esquerda Roberto Sánchez e a líder de direita no país, Keiko Fujimori.
O cenário é uma espécie de “repeteco” das últimas eleições de 2021, quando o esquerdista Pedro Castillo – de quem Sánchez era ministro – venceu Keiko no segundo turno e, meses depois, armou uma tentativa de golpe, sendo preso e condenado.
A disputa chega ao final – assim se espera – depois de um primeiro turno extremamente conturbado, com direito a contestação, polêmicas e um atraso de quase um mês para o resultado das urnas.
Keiko, filha do ex-presidente condenado Alberto Fujimori, foi confirmada em primeiro lugar logo no início, mas a disputa entre quem seria seu adversário durou semanas e precisou ser apurada voto a voto.
Sánchez e o candidato da extrema direita Roberto López Aliaga estavam praticamente empatados até a contagem final.
O Observatório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE), o TSE peruano, só bateu o martelo quando a apuração chegou a 99,94% das atas eleitorais revisadas, e confirmou Sánchez no 2º turno. Ou seja, o tempo de campanha foi um dos menores que o país já teve.
A demora na contagem e as contestações eleitorais, somadas a um número recorde de candidatos à presidência no país, 35 ao todo, mostram a extrema fragmentação política e a crise de confiança na democracia que vive o Peru.
Lucas Berti, cientista político, pesquisador sobre o Peru no Observatório Político Sul-Americano e coordenador-executivo do Grupo de Relações Internacionais e Sul Global, afirma que, de fato, o que aconteceu nessas eleições no país não vem de um “vácuo”.
“É um sintoma de um processo de deslegitimação institucional que vem acontecendo nos últimos anos no país. E isso, na medida em que os presidentes eleitos não conseguem governar”, afirmou.
9 presidentes em 10 anos
O Peru contabilizou 9 presidentes em 10 anos. Para se ter ideia, os mandatos presidenciais no Peru são de 5 anos. Ou seja, em uma estabilidade democrática, o país teria apenas dois presidentes neste mesmo período. Porém, a realidade foi outra e alguns líderes não duraram nem 5 dias no cargo.
“Nestes anos, a liderança que mais durou foi a de Dina Boluarte, que ficou no poder por quase três anos. Mas, ao desagradar a oposição liderada pela coalizão fujimorista de Keiko no Congresso, também caiu”, diz Berti
Além disso, vale destacar o artigo 113 da Constituição peruana, que afirma que um presidente pode ser derrubado por “incapacidade moral ou física permanente” – e quem avalia esse diagnóstico são os parlamentares.
Então, por exemplo, se o Congresso não gosta simplesmente de uma lei que o presidente tenta passar, eles podem acionar esse artigo, votar e, em menos de 24 horas, derrubar um presidente que foi eleito pela maioria da população.
Para o cientista político Berti, essa facilidade do processo demonstra a fragilidade institucional em jogo no Peru. De acordo com ele, nos últimos anos, a coalizão fujimorista, de maioria absoluta no Congresso, vem articulando poderes, seja no Legislativo, nos tribunais ou no sistema judiciário.
Desde 2008, a filha de Alberto Fujimori lidera essa corrente fujimorista ao fundar o partido Fuerza Popular e tenta chegar ao Poder Executivo no Peru. Só que isso não acontece, explica Berti.
“Keiko perdeu as últimas três eleições (2011, 2016 e 2021) no segundo turno, por margens muito apertadas. E agora nessa eleição, em 2026, passa para o segundo turno com uma margem maior de votos. Alguns institutos dão vantagem para Keiko, outros para o Sánchez. O que indica uma coisa: a eleição será difícil e o resultado ainda está em aberto”, diz Berti.
Democracia em crise: ‘desconfiança crônica’
A consequência dessa queda de braço entre Executivo e Legislativo no país resultou não só em uma profunda crise política, mas também na forma como a população enxerga a democracia.
“A credibilidade das instituições é baixíssima se olharmos os últimos 10 anos. E a desconfiança no Congresso passa de 90%, especialmente durante o processo que iria resultar na queda da ex-presidente Dina Boluarte, em 2025”, explica Berti.
Os dados mais recentes da pesquisa do Latinobarómetro, que mede o nível de democracia nos países da América Latina, apontam que o Peru enfrenta um dos níveis mais baixos de confiança nas instituições se comparado a outros países da América Latina. Há o que pode ser classificado como uma “desconfiança crônica”.
De acordo com os dados, 90% dos peruanos têm pouca ou nenhuma confiança no governo e no Congresso; e apenas 10% apenas se dizem satisfeitos com a democracia. Além disso, a pesquisa também notou outro sentimento perigoso: a indiferença sobre a política ou ao tipo de regime de governo.
A própria fragmentação política extrema, como mostra o número de 35 candidatos à presidência no 1º turno, também demonstra isso.
“Existe uma facilidade muito grande de criar partidos no Peru e são partidos chamados de ‘pouco institucionalizados’. São partidos que não têm raízes efetivas em uma sociedade, que não é um partido que entra para a disputa durante 20, 40 anos. Mas sim legendas que surgem e somem, assim como também não há uma fidelidade dos candidatos aos partidos, que trocam de coalizão também com facilidade”, explica Berti.
Todo esse cenário reforça no eleitor a lógica de que os candidatos chegam muitas vezes a uma eleição sem base sólida ou sem um partido conhecido. Isso acaba gerando uma leitura de desconfiança e, muitas vezes, um descrédito e temor da facilidade com que essas pessoas eleitas podem cair.
Não é difícil imaginar que o próximo presidente eleito, caso seja Sánchez, poderá enfrentar exatamente o mesmo padrão que derrubou os antecessores – a menos que consiga alterar essa correlação de forças no Parlamento.
Já, se Keiko for eleita, segundo Berti, talvez exista uma facilidade maior de governabilidade, já que o partido dela tem maioria no Congresso. Mas, ainda assim, terá que lidar com uma crise política no país.
Diante de tudo isso, sem dúvida, o maior desafio vai ser convencer o eleitor a sair de casa para votar e acreditar novamente na política peruana.




