Após indiciamento de Raúl Castro pelos EUA, Trump diz que está ‘libertando Cuba’

O ex-presidente cubano Raúl Castro
Getty Images via BBC
O presidente Donald Trump afirmou na quarta-feira que os Estados Unidos estão “libertando Cuba” e que não pode dizer o que acontecerá com a ilha a seguir, horas depois de seu Departamento de Justiça indiciar o ex-presidente cubano Raúl Castro.
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Os Estados Unidos acusaram criminalmente nesta quarta-feira (20) o ex-presidente do país e irmão de Fidel Castro, de 94 anos.
A repórteres, o procurador-geral interino dos Estados Unidos, Todd Blanche, afirmou que os EUA esperam que Raúl Castro compareça a um tribunal americano “por sua própria vontade ou por outros meios”. Ele também declarou esperar que o ex-mandatário acabe “atrás das grades” ao fim do processo.
De acordo com os autos, Castro é acusado de quatro homicídios, dois crimes de destruição de aeronave e um crime de conspiração para matar cidadãos americanos.
Outras cinco pessoas também são citadas como rés em uma moção dos EUA para tornar pública a acusação contra Castro.
“Os Estados Unidos não tolerarão um estado pária que abrigue operações militares, de inteligência e terroristas estrangeiras hostis a apenas 145 quilômetros do território americano”, disse Trump em um comunicado divulgado na quarta-feira.
A expectativa é que a acusação sobre o ex-presidente cubano, que ainda não foi detalhada, envolva um incidente ocorrido há 30 anos: a derrubada de dois aviões civis em fevereiro de 1996.
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O caso é considerado um dos episódios mais delicados da relação entre EUA e Cuba e ocorreu quando Raúl Castro era ministro da Defesa. A ilha estava então sob o comando de seu irmão, Fidel Castro (1926-2016).
As aeronaves pertenciam ao grupo Brothers to the Rescue (“Irmãos ao Resgate”), formado por cubanos anticastristas exilados nos EUA. Os quatro tripulantes morreram, três deles cidadãos americanos.
Da guerrilha ao poder
O episódio é mais um no percurso longo e errático das relações entre Raúl Castro e Washington.
Raúl Modesto Castro Ruz, que completa 95 anos no próximo dia 3, foi um dos guerrilheiros que esteve ao lado de Fidel e de Che Guevara em Sierra Maestra em 1958. O grupo depôs o ditador Fulgencio Batista no primeiro dia do ano seguinte e, em seguida, estabeleceu um regime socialista na ilha.
Apesar de ser um dos mais jovens do grupo, Raúl tomou decisões difíceis. São atribuídas a ele ordens de execução de agentes da ditadura após a fuga de Batista.
Atuando como ministro da Defesa de Cuba durante 50 anos, ele enviou centenas de milhares de militares para lutar pela independência de Angola e de outros países africanos, nas décadas de 1970 e 1980, no maior destacamento de Forças Armadas de um país latino-americano para fora da região.
Por décadas, ele permaneceu à sombra de Fidel. Quando seu carismático irmão adoeceu em 2006 e lhe cedeu o poder, Raúl, acostumado a estar nos bastidores, tomou a frente dos holofotes, conduzindo a ditadura cubana até se aposentar em 2021, aos 89 anos, entregando o posto a Miguel Díaz-Canel, o atual líder do regime.
Uma vez no poder, “ele nunca tentou imitar a personalidade de seu irmão, construiu sua própria liderança, mais racional e pragmática”, afirmou Michael Shifter, presidente do “think tank” Diálogo Interamericano, em uma análise à agência AFP.
Após assumir oficialmente a Presidência, em 2008, ele suspendeu as restrições a viagens de cubanos ao exterior e libertou alguns opositores da prisão.
Também empreendeu reformas econômicas, permitindo a venda de casas, enquanto muitos passaram a trabalhar no setor privado com a proliferação de pequenos negócios.
Em 2014, surpreendeu o mundo ao anunciar o restabelecimento das relações diplomáticas com os Estados Unidos, levando a um degelo que durou apenas até 2016, com a chegada de Donald Trump à Casa Branca pela primeira vez.
Pressão sobre a ilha
Incidente em meio a tensão entre EUA e Cuba, após a imposição de embargo petrolífero à ilha por Washington
CTK Photo/IMAGO via DW
Desde a captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro, os Estados Unidos vêm pressionando o governo cubano a implementar reformas profundas em seu sistema econômico e regime político. O governo em Havana rejeita as exigências e argumenta com a soberania nacional.
Para intensificar a pressão sobre a ilha, Washington impôs, desde então, um embargo petrolífero que exacerbou a crise energética que Cuba já enfrentava. A isso somou-se a ordem executiva assinada em 1º de maio pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que amplia as sanções econômicas, financeiras e comerciais em vigor há mais de seis décadas.
Uma agressão militar dos EUA contra a ilha é considerada plausível por especialistas após os acontecimentos na Venezuela e no Irã, e o próprio Trump já falou que Cuba “é a próxima”.




